As recentes declarações do presidente francês, Emmanuel Macron, reacenderam um debate antigo, mas longe de consensual: o impacto dos jogos eletrônicos — especialmente os violentos — sobre o comportamento de crianças e adolescentes. Em entrevista concedida ao veículo Brut em 5 de fevereiro, o chefe de Estado associou a exposição prolongada a conteúdos violentos, tanto em videogames quanto em redes sociais, ao aumento de comportamentos agressivos entre os mais jovens. A fala provocou reações imediatas do setor de tecnologia e entretenimento, além de especialistas que estudam o tema há décadas.
A crítica presidencial e a abertura de uma missão científica
Macron afirmou que a violência observada na sociedade, sobretudo entre adolescentes, estaria ligada ao consumo intensivo de imagens violentas online e à prática frequente de jogos eletrônicos do mesmo teor. Segundo ele, crianças e jovens estariam hoje “muito mais expostos” a esse tipo de conteúdo, o que influenciaria sua relação com a violência no mundo real.
O presidente citou exemplos de jogos populares entre menores de idade, incluindo títulos em que o objetivo central é eliminar adversários. Na avaliação dele, passar “cinco ou seis horas por dia matando pessoas” em ambientes virtuais poderia dessensibilizar os jogadores, reduzindo inibições e, em casos extremos, contribuindo para atitudes violentas fora das telas.
Apesar do tom crítico, Macron ponderou que não se deve “colocar tudo no mesmo saco”, reconhecendo que há usos positivos dos videogames. Ainda assim, anunciou a criação de uma missão conduzida por especialistas e pelo Conselho Nacional do Digital para medir, de forma científica, os efeitos dos jogos sobre a saúde mental e o comportamento de menores. O estudo deve durar cerca de dois meses e poderá embasar futuras decisões regulatórias — inclusive restrições mais duras, caso haja consenso científico sobre impactos negativos relevantes.
Regulação de telas: um pacote mais amplo
O debate sobre videogames surge dentro de uma agenda mais ampla de regulação do ambiente digital. Na mesma entrevista, Macron voltou a defender a proibição do acesso às redes sociais por menores de 15 anos — medida já aprovada pela Assembleia Nacional em 26 de janeiro e que pode entrar em vigor a partir de setembro, se confirmada nas etapas finais do processo legislativo.
O plano prevê mecanismos de verificação de idade no momento do cadastro, mas sem armazenamento de dados pessoais, segundo o governo. O anonimato dos usuários seria preservado, e não haveria monitoramento individual de conteúdos ou atividades. Macron também afirmou que redes privadas virtuais (VPNs), frequentemente usadas para contornar bloqueios geográficos, permaneceriam legais.
Ele reconheceu, contudo, que qualquer sistema de restrição terá brechas — comparando a situação ao consumo de álcool por menores, que continua ocorrendo apesar das proibições legais.
Reação da indústria de games
As declarações presidenciais foram recebidas com forte crítica pela indústria francesa de jogos eletrônicos. O Sindicato dos Editores de Software de Lazer (Sell) reagiu duramente, acusando o governo de incoerência ao mesmo tempo em que celebra o sucesso internacional do setor.
A entidade destacou que, no próprio dia das declarações, profissionais do estúdio responsável pelo jogo Clair Obscur: Expédition 33 foram condecorados pelo Ministério da Cultura com a Ordem das Artes e das Letras. Para o sindicato, é contraditório homenagear criadores pela manhã e, horas depois, desqualificar publicamente a principal indústria cultural do país.
O Sell também ressaltou que há vasta literatura científica sobre o tema e que, até hoje, não foi estabelecida correlação direta entre a prática de videogames e comportamentos violentos — argumento sustentado por numerosas pesquisas acadêmicas internacionais.
Inteligência artificial e chatbots entram na pauta
O escopo das preocupações do governo não se limita aos jogos. Macron anunciou que especialistas em psiquiatria e dependência digital irão avaliar os efeitos de agentes de inteligência artificial — como chatbots conversacionais — sobre a saúde mental de jovens.
A investigação buscará identificar possíveis vínculos com dependência, sofrimento psicológico ou transtornos comportamentais. Dependendo dos resultados, novas regras poderão ser propostas, incluindo limitações de uso ou restrições específicas para menores.
Ritmo escolar e saúde mental
Ainda no campo do bem-estar juvenil, o presidente voltou a defender mudanças no calendário e na carga horária escolar. Ele sugeriu jornadas mais curtas no ensino médio e fundamental II, combinadas com um período concentrado de férias de verão de cerca de um mês.
A proposta, porém, foi adiada pelo governo para discussões futuras, possivelmente a partir de 2027. Macron argumenta que dias letivos menos exaustivos favorecem a aprendizagem e que as longas férias atuais ampliam desigualdades sociais — já que estudantes de famílias com menos recursos tendem a perder mais conteúdo no intervalo entre anos letivos.
Entre evidências científicas e pressão política
O movimento do governo francês indica uma tentativa de ampliar o controle sobre diferentes dimensões da vida digital de menores — de redes sociais a videogames e ferramentas de IA. Ao mesmo tempo, a falta de consenso científico sólido sobre alguns desses impactos mantém o debate aberto.
Enquanto a missão de especialistas avança, o setor de tecnologia observa com cautela. O resultado desses estudos poderá influenciar não apenas políticas públicas na França, mas também discussões regulatórias em outros países que enfrentam dilemas semelhantes sobre juventude, saúde mental e cultura digital.